
Hoje acordei com sono!
Parece estranho, mas é isso mesmo.
Uma noite não foi suficiente por hoje. Acho que vou dormir durante o dia. Não fará tanta diferença, ou diferença nenhuma, porque a vida continuará acontecendo lá fora.
Certa vez, surpreendido pela noite numa das trilhas que costumo fazer pela Mata Atlântica, me dei conta de que a vida não pára, apenas troca a sua dinâmica.
O mundo da luz dá lugar ao da escuridão. As flores perdem o interesse e se fecham esperando para desabrochar novamente no dia seguinte. A visão é substituída pela audição. Animais que se utilizam da ecolocalização fazem a floresta fervilhar de sons numa cacofonia aparentemente incompreensível, mas tudo é idioma.
Os sapos e as rãs coaxam a evocar suas fêmeas, insetos estralam o corpo com o mesmo fim, grilos friccionam suas asas com a s patas a exemplo de um violinista em busca de um caso de amor. É por isso que se faz música na face desta terra. Quase sempre.
Da mesma maneira que os animais diurnos se escondem evitando serem vistos, o silêncio é a camuflagem da noite. Um ruído pode ser fatal. Tem sempre alguém à espreita com suas grandes orelhas especializadas em localizar presas pronto para dar o bote mortal.
Voar não é problema na escuridão quando se tem um radar. Morcegos batem as asas aos gritos em busca de frutos e insetos. Também é possível saltar. Para os “olhudos” da floresta que sabem aproveitar qualquer réstia mínima de luz é fácil dar saltos fenomenais.
A transformação da vida continua mesmo sem a luz, porque ela já fez o seu papel no dia anterior.
E de manhã com os primeiros raios de sol é hora de trocar novamente o código e continuar a lida de cada dia.
Vou dormir e guardar essa beleza dentro de mim.
by: Henrique Terra
